| Artigos MUDANÇAS EM MEDELLÍN Autor: Oriol Bohigas Data: 30/11/2007 |
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Arquiteto Publicado originalmente em El Pais, edição de 6 de setembro de 2007, sob o título "Câmbios em Meddellín". Tradução: Bruna Cardoso Revisão técnica: Mauro Almada * * * Durante muito tempo, a cidade colombiana de Medellín foi vista como um palco de graves conflitos, atribuídos a problemas sociais gerais e, em boa parte, à delinqüência do narcotráfico, relacionada esta – de maneira muito complexa – com ações revolucionárias reivindicatórias que se transformaram em graves anomalias. Mas talvez se tenha insistido pouco nos fatos estruturais que conformaram o cenário propício a esses desastres. Em Medellín, 40% da população vive nos chamados tugúrios – guetos oriundos da desordem e da barbárie de uma autoconstrução descontrolada –, somente habitáveis em condições desumanas. Paralelamente, o segmento mais abastado da sociedade também erigiu seus próprios guetos: áreas forçadas a se isolar e que não chegam a constituir bairros autênticos, não apenas por sua especificidade social, mas também pela ausência de uma trama de espaços e equipamentos públicos significativos. Assim, apenas uma pequena parte da população vive nos chamados 'resíduos aproveitáveis' da pequena área que ainda se pode chamar de 'cidade'. Logo, uma comunidade de mais de dois milhões de habitantes vive hoje praticamente subdividida em vários guetos que, por razões opostas, não alcançam as condições mínimas de habitabilidade – segurança, coesão social, acesso à informação etc. –, nem tampouco adquirem um caráter autenticamente 'urbano'. Não faz muito tempo, a atual equipe do Governo Municipal – formada pelo Prefeito Sergio Fajardo e um grupo de técnicos liderados por Alejandro Echeverri – iniciou um plano de reforma social da cidade baseado, primordialmente, num processo de 'reconstrução urbanística'. Trata-se de uma iniciativa importante e de grande transcendência para o conjunto das experiências urbanísticas e políticas contemporâneas. Uma primeira linha desse plano parte de uma atenção especial dedicada aos graves problemas das comunidades, quer dizer, dos tugurios autoconstruídos, absolutamente isolados e – como no Rio de Janeiro, em Bogotá, em Lima, e em tantas outras cidades latino-americanas – situados em terrenos escabrosos, não urbanizados, inexeqüíveis e desprovidos de serviços públicos. A estratégia tem sido começar com a construção de um centro de atividade coletiva, implantado no miolo da comunidade: um parque ou uma praça que abrigam um equipamento multifuncional – escola, biblioteca, centro cívico –, de grande qualidade arquitetônica, e para o qual convergem novas linhas de transporte público, em que pese as quase intransponíveis dificuldades topográficas e a impenetrável densidade da massa de barracos [chavolas].
Várias dessas linhas de transporte tiveram que adotar soluções tecnológicas – digamos – 'radicais', como no chamado metro-cable, um sistema teleférico de cabines que ascende à montanha partindo do Centro da cidade. Com a implantação dessas novas linhas de transporte público e dos complexos cívico-culturais, se consegue criar 'centralidades' – de utilização quase obrigatória –, que produzem efeitos de coesão social, onde praticamente elas não existiam. O mesmo resultado se está obtendo com a construção de pontes de ligação entre comunidades vizinhas, até então separadas por vales profundos – antes, cenários de violência entre comunidades vizinhas, mas que agora começam a se tornar palcos de integração e participação social. A segunda linha do plano diz respeito à hierarquização e dignificação dos espaços públicos e dos sistemas viários já existentes, localizados naqueles que poderíamos chamar de 'setores urbanizados' da cidade. Esta linha também enfoca e prioriza as atuações simultâneas, como a construção de grandes equipamentos metropolitanos – centro de convenções e feiras, teatro, biblioteca central –, e a implantação de uma rede de transportes públicos que não seja apenas funcionalmente adequada, mas que também proporcione uma leitura coerente e compreensível daquelas partes da cidade que poderão vir a se tornar representativas de um novo patamar de coesão social. Outra importante consideração reside na nova arquitetura que está sendo edificada nas comunidades e no Centro urbanizado, e que apresenta uma qualidade superior, desprovida de qualquer viés populista, e também de qualquer pinturesquismo, atenta a uma já consolidada tradição colombiana de modernidade, forjada à sombra de mestres que marcaram uma época brilhante – nomes tão significativos como Salmona, Bermúdez, os lecorbusianos de sua época, e toda uma 'linhagem' cuja segunda geração está agora produzindo seus frutos. Ressalte-se que essa exigência de qualidade arquitetônica – apesar de todas as dificuldades e necessidades urgentes –, está colaborando, efetivamente, para a construção de uma nova auto-estima coletiva. A evolução dessas intervenções, portanto, deve ser observada atentamente, não apenas para que se avalie seus resultados, mas também para que se obtenha novos testemunhos sobre a real 'eficácia social' de um processo de reconstrução urbana, numa cidade tão conflituada como o foi Medellín. Até que ponto uma redução nos enfrentamentos e mortes será um elemento crucial – e talvez definitivo –, para a construção de uma convivência mais elevada e mais civilizada ? Até que ponto essa operação urbanística reforçará e provocará as indispensáveis 'providências' públicas que assegurem uma nova ordem social ? Será que não devemos até mesmo temer uma 'banalização' desse urbanismo, que acertadamente prefere transformar o existente ao invés de destruí-lo, mas que contraditoriamente ofereça o conformismo do pinturesco como um substituto para as transformações de fundo ? Será possível melhorar a vida dessa multidão sem mudar, de uma vez só ou num único golpe, toda a estrutura residencial ? Seria lamentável, por exemplo, que o metro-cable se transformasse num sistema de transporte 'turístico', isto é, projetado para 'se contemplar do alto', sem risco de contaminação, a beleza pitoresca dos barracos – com sua população mal alojada – e da vida comunitária – dura, porém vibrante. * VÍDEOS SOBRE MEDELLÍN 1. Conferência "El valor político del urbanismo", proferida pelo arquiteto espanhol Oriol Bohigas no encontro "La transformación de Medellín: urbanismo social (2004-2007)": http://www.medellin.gov.co/alcaldia/jsp/modulos/V_medellin/obj/videos/El%20valor%20politico%20del%20urbanismo.wmv. 2. Parques-biblioteca y cultura del emprendimiento en Medellín: http://www.medellin.gov.co/alcaldia/jsp/modulos/V_medellin/obj/videos/Parques%20biblioteca%20emprendimiento256K_Stream001.wmv. 3. Barrios que se tejen a través de los puentes en la zona nororiental: http://www.medellin.gov.co/alcaldia/jsp/modulos/V_medellin/obj/videos/Puentes256K_Stream001.wmv. 4. Outros vídeos em http://www.medellin.gov.co/alcaldia/jsp/modulos/V_medellin/index.jsp?idPagina=847. MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A CIDADE 1. Site oficial da Prefeitura de Medellín: http://www.medellin.gov.co/alcaldia/index.jsp. 2. http://es.wikipedia.org/wiki/Medell%C3%ADn_%28Colombia%29. |