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QUE ALGUÉM COMPONHA O DESERTO !
Javier Mozas
18/12/2009

 

Publicado originalmente no suplemento Babelia de El País, edição de 8 de agosto de 2009, sob o título "¡Que alguien componga el desierto!". Disponível online em

www.elpais.com/articulo/arte/alguien/componga/desierto/elpepuculbab/20090808elpbabart_1/Tes.

 

Tradução: Mauro Almada
 

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O Jardim da Muralha, que será construído sobre um túnel destinado ao tráfego de veículos.
Crédito: www.elpais.com.
O Jardim da Muralha, que será construído sobre um túnel destinado ao tráfego de veículos.
Crédito: www.elpais.com.


Ponte Mulay el Hassan sobre o rio Bu-Regreg, entre Rabat e Salé;
projeto do arquiteto e engenheiro francês Marc Mimram.
Crédito: www.elpais.com.
Ponte Mulay el Hassan sobre o rio Bu-Regreg, entre Rabat e Salé;
projeto do arquiteto e engenheiro francês Marc Mimram.

Crédito: www.elpais.com.

 

Que alguém componha o deserto ! E é preciso que alguém o faça com uma música que esteja para lá [más allá] da harmonia e da melodia; que o componha com o som do vento e com o canto dos beduínos – que Hassan Fathy recordava em sua infância –, sibilando entre as pirâmides ou deslizando ao largo do canal de Alexandria. Pois captar a musicalidade do vento do deserto, para que module a vida urbana, é conseguir a autêntica maestria.

Hassan Fathy (1900-1989).
Crédito: Barry Iverson in www.barryiverson.com.
Hassan Fathy (1900-1989).
Crédito: Barry Iverson in www.barryiverson.com.

 

No urbanismo ocidental, a cena pública reduziu-se, hoje, a quatro categorias focadas num objetivo comum: a montagem de 'espetáculos' para a comercialização do espaço urbano. Até recentemente, seus conteúdos imprescindíveis eram o ócio, o turismo, a cultura e a ecologia. "Teatro ou fastio [aburrimiento]", "mercado ou morte", como defendiam os mais apaixonados. Pois bem, no Ocidente, o mercado naufragou [se ha hundido], e os projetistas do espaço público assistiram desfazer-se em suas mãos esse envoltório vazio, que embasava seus êxitos ao converter espaços de relacionamento em parques temáticos. O olhar, agora, se dirige para outras realidades e aponta para outras referências, que lhes ajudem a compreender a nova situação. O mundo ocidental concluiu uma etapa e necessita encontrar maneiras mais sutis de intervenção no território. Se exige mais autenticidade e integridade, e será de lugares que até agora estavam fora de foco, de onde surgirão os novos modelos.

 

Salé e Rabat são duas cidades gêmeas e rivais – com uma população conjunta de um milhão e meio de pessoas e uma história comum, separadas pelo Rio Bu-Regreg –, enfrentando o maior projeto de regeneração urbana da história do Marrocos. A área de intervenção é de 6.000 hA, compreendendo as duas margens do rio, que serpenteia numa linha ondulante de 15 km de extensão, desde sua desembocadura, no Atlântico, até a represa de Sidi Mohamed Ben Abdelá. Os trabalhos começaram em 2006, após rigorosos estudos hidráulicos e ambientais. A filosofia do plano se assenta sobre princípios impregnados de uma modernidade urbana importada, à qual se aderiu com os pés trocados [a la que se ha pillado com el pie cambiado]. Sendo assim, a 'autenticidade' da grande operação urbanística fica comprometida, não porque se esteja executando mal os procedimentos, mas porque se pensa em utilizar o modelo ocidental como um 'carimbo' [sello], que se estampa aqui e ali. Sente-se falta de [se echa en falta] um salto [proyección] arriscado sobre o desconhecido, que explore o deserto e componha o 'ato justo' por convicção, e não por mimetismo. Afortunadamente, os atuais momentos de incerteza econômica vão permitir que se mire melhor o alvo [corregir el tiro].

Salé e Rabat: gêmeas bivitelinas.
Crédito: http://earth.google.com.
Salé e Rabat: gêmeas bivitelinas.
Crédito: http://earth.google.com.

 

Os 'papéis principais' foram outorgados a quatro inevitáveis atores: em primeiro lugar, ao 'ócio', com a construção, na orla de Salé, de uma marina desportiva para pequenos barcos de recreio, capazes de navegar num Atlântico enfurecido, e um cais [muelle] para navios de cruzeiro, na margem de Rabat. Em segundo lugar, ao 'turismo', concentrado numa cidade lacustre denominada Amwaj – ou 'onda', em árabe –, 50% financiada com capitais dos Emirados Árabes e abrigando habitações, escritórios, lojas, hotéis de luxo, um palácio de congressos e centros de entretenimento, com todo o realismo que canais importados do deserto de Dubai podem apresentar. Em terceiro lugar, à 'cultura', recuperando-se o patrimônio histórico local mediante a 'valorização' [la puesta en valor] das ruínas da Necrópole de Chellah [yacimientos de Chelá], da Fortaleza dos Udayas e da esplanada da Torre Hassan. E em quarto lugar, à 'ecologia', visando salvaguardar a flora e a fauna, regenerando-se o ecossistema marinho, aumentando-se sua navegabilidade, e eliminando-se as fontes de poluição, através de um plano integrado de saneamento. Dessas 4 categorias, 'ócio' e 'turismo' se comunicam em linha direta com os investidores capitalistas. Sem dúvida, a condição mais espiritual da 'cultura' e a característica mais terra-a-terra [terrenal] da 'ecologia' estão atreladas [enganchadas] ao brilho do dinheiro, para poder subsistir.

Marina Bouregreg, na orla de Salé.
Crédito: www.bouregregmarina.com.
Marina Bouregreg, na orla de Salé.
Crédito: www.bouregregmarina.com.


Ilhas Amwaj, numa imagem de 2007.
Crédito: Alhaddadm in http://commons.wikimedia.org.
Ilhas Amwaj, numa imagem de 2007.
Crédito: Alhaddadm in http://commons.wikimedia.org.


Nécropole de Chellah.
Crédito: Romain in http://picasaweb.google.com.
Nécropole de Chellah.
Crédito: Romain in http://picasaweb.google.com.


Despoluição, saneamento e navegabilidade:
vetores importantes para o
Despoluição, saneamento e navegabilidade:
vetores importantes para o 'ressurgimento'.
Carta náutica de Salé e Rabat.

Crédito: www.hoeckmann.de.

 

No século XVII, o Centro velho [medina] de Rabat foi defendido por refugiados muçulmanos expulsos da Espanha. Um contingente importante, os 'mouriscos' procedentes de Hornachos, em Badajoz, constituíram e sustentaram, durante quase 40 anos, a República independente de Bu-Regreg, entrincheirada na fortaleza [kasbah] dos Udayas. Este pequeno Estado, no qual se falava espanhol, sobreviveu da pirataria [corso] e guerreava continuamente com a cidade rival e fronteira [enfrentada] de Salé, alimentando-se a inimizade mútua através da 'competência corsária' [pirata]. Mas a herança [huella] espanhola está se apagando no Marrocos, e agora são empresas francesas e italianas as que ali deixam suas marcas. E neste contexto, apenas o Instituto Cervantes ainda continua mantendo viva essa chama cultural.

Rabat: a artilharia francesa atravessando o Rio Bu Regreg, em 1911.
Crédito: Grébert in http://commons.wikimedia.org.
Rabat: a artilharia francesa atravessando o Rio Bu Regreg, em 1911.
Crédito: Grébert in http://commons.wikimedia.org.

 

A moderna cidade de Salé é mal planejada e padece de elevada contaminação. É a segunda cidade do Marrocos, depois de Casablanca, e serve de dormitório para Rabat, na margem oposta do rio. A população de Salé-la-Malquerida, imbuída de forte identidade islâmica [sentimiento islamita], se sente discriminada no projeto Bu-Regreg, e 'saboreia' o gostinho amargo [percibe un ligero retrogusto] da ausência de democracia em todo o processo, apesar dos esforços de informação e negociação empreendidos pelas autoridades e técnicos envolvidos. A Agência de Desenvolvimento do Bu-Regreg enfrenta, ainda, os problemas de propriedade do solo e também o dos trabalhadores [oficios] tradicionais do rio, como barqueiros e pescadores, que exigem a proteção de seus direitos e costumes.

A moderna Salé.
Crédito: Bernard Gagnon in http://fr.wikipedia.org.
A moderna Salé.
Crédito: Bernard Gagnon in http://fr.wikipedia.org.

 

O projeto de urbanização de todo o vale foi dividido em seis 'atos' [secuencias] – voltemos, pois, ao mundo do espetáculo. O primeiro trecho – Bab al Bahr –, e o terceiro – Kasbat abi Raqraq –, foram desenvolvidos pelo estúdio parisiense de Arquitetura e Urbanismo, Reichen Robert & Associados. O segundo – Amwaj – está nas mãos do grupo kuwaitiano Sama Dubai. Bernard Reichen – Prêmio do Urbanismo francês, em 2005 – explorou o conceito de 'urbanismo territorial', que amplia a escala do projeto, incorporando à planificação urbana uma dimensão quase geográfica. Este estúdio é também o responsável pela ordenação dos antigos terrenos do aeródromo de Casablanca – onde Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se deram adeus para sempre.

No diálogo mais famoso do cinema mundial, em Casablanca, de Michael Curtiz (1942):
- "E nós, Rick ?", pergunta Ilsa Lund (Ingrid Bergman).
- "Nós sempre teremos Paris", responde Rick Blaine (Humphrey Bogart).
Crédito: http://ocdeals.freedomblogging.com.
No diálogo mais famoso do cinema mundial, em Casablanca, de Michael Curtiz (1942):
- "E nós, Rick ?", pergunta Ilsa Lund (Ingrid Bergman).
- "Nós sempre teremos Paris", responde Rick Blaine (Humphrey Bogart).

Crédito: http://ocdeals.freedomblogging.com.

 

Ainda hoje, o Marrocos é uma imensa fonte de inspiração. E o escritor Mohamed Chukri¹ compartilha desse 'entendimento marroquino do mundo' – ainda que isto não lhe tenha sido reconhecido, senão quando à beira da morte –, sobretudo por não se deixar contaminar pela religião do 'progresso'. Apesar do 'negocismo' [affairisme] reinante, e da reprodução de modelos ocidentais em suas referências urbanas, o potencial criativo marroquino parte de outras coordenadas e ainda mantém a força das convicções profundas. As sociedades islâmicas conservam, frente ao materialismo ocidental, alguns princípios baseados em categorias substanciais, em 'panes desnudos'² que se podem tomar como referência. Se a transformação do Bu-Regreg conseguir escapar da excessiva 'cenarização' [escenificación] e mantiver a autenticidade e a musicalidade do lugar, a comunidade de Rabat-Salé voltará a escutar, através do rio, os sons do deserto; caso contrário – se Alá não o desejar –, o que ali se ouvirá será apenas a trilha sonora de uma fita da Warner.

Mohamed Chukri (1935-2003).
Crédito: http://casablanca.cervantes.es.
Mohamed Chukri (1935-2003).
Crédito: http://casablanca.cervantes.es.


El Pan Desnudo, de Mohamed Choukri.
Crédito: www.amazon.de.
El Pan Desnudo, de Mohamed Choukri.
Crédito: www.amazon.de.

 

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NOTAS DO TRADUTOR

 

1. Mohamed Chukri [ou Šukrī, ou Choukri, ou Shukri]: escritor marroquino (1935-2003) nascido no seio de uma família miserável e violenta, o que o leva a fugir de casa para viver nas ruas de Tânger. Encarcerado aos 20 anos, aprende a ler e escrever, e logo se torna um dos mais respeitados intelectuais do Marrocos. Começa a publicar suas obras literárias a partir de 1966. Entre elas, cabe destacar a trilogia autobiográfica El Pan Desnudo, Tiempo de Errores, e Rostros, Amores, Maldiciones; as novelas El Loco de las Rosas e La Tienda; e ainda suas memórias sobre os encontros com os escritores Paul Bowles, Jean Genet e Tennessee Williams. Antes de falecer, criou uma fundação que leva seu nome, onde se conservam seus manuscritos. Cf. http://es.wikipedia.org/wiki/Mohammed_Chukri.

 

2. 'Pan desnudo' [al-jubz al-hafi, em árabe]: pão a seco, pão sem recheio, pão sem nada que o acompanhe, pão puro. No texto, a expressão 'panes desnudos' é uma referência alegórica ao romance autobiográfico do escritor marroquino Mohamed Chukri, El Pan Desnudo, originalmente escrito em árabe [tradução inglesa: For Bread Alone; tradução francesa: Le Pain Nu], onde ele narra sua infância e adolescência miseráveis, pontuadas pela fome, o analfabetismo, a violência das ruas, as drogas e a prostituição. Cf. o verbete "El Pan Desnudo: ¿qué ocultan los títulos?", de Malika Embarek López, em www.argancultural.com/argan_malika.htm.

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