Arquiteto
Publicado originalmente em Caderno de Boas Práticas em Arquitetura: eficiência energética nas edificações, volume 10: 'Edificações comerciais'. Rio de Janeiro: IAB/RJ, 2009
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Ainda que marginalizados pela Academia e pela Crítica oficialista da Arquitetura brasileira – que até hoje não produziram um único livro dedicado à sua obra –, figuram os irmãos Roberto entre os mais importantes arquitetos modernistas do Brasil.
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Edifício Seguradoras.
Crédito: Carlos Botelho in MINDLIN (1999). |
Autores de uma extensa e qualificada produção, os irmãos Marcelo (1908-1964), Milton (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-1996) assinaram, entre outras, obras pioneiras do Movimento Moderno no Brasil, de importância histórica incontestável, como o edifício Morro de Santo Antônio (1929), a sede da Associação Brasileira de Imprensa (1936-38), o Aeroporto Santos Dumont (1937-44), e a sede do Instituto de Resseguros do Brasil (1941-42), todas no Rio de Janeiro.
Desde o início, no entanto, os irmãos arquitetos se destacaram, não apenas pelo rigor estético e funcional de seus edifícios, mas também pela acurada pesquisa tecnológica – sempre inventiva –, que empreendiam para cada projeto que desenhavam, como se pode observar nas soluções estruturais para o Hangar nº 1 do Santos Dumont (1937), em gigantescas treliças pré-moldadas de concreto armado – importadas da França –, ou para o estande de vendas da empresa SOTREQ (1934) – revendedora dos tratores Caterpillar –, em arcos treliçados de madeira laminada, com 44 m de vão livre.
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Treliças do Hangar nº 1 do Santos Dumont.
Crédito: GOODWIN (1943), ou XAVIER et alli (1991). |
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Arcos do estande de vendas da SOTREQ.
Crédito: Marcel Gautherot in MINDLIN (1999). |
É no estudo dos 'envelopes' termo-protetores para as fachadas dos edifícios, no entanto, que os irmãos Roberto se tornaram inigualáveis, entre todos os grandes arquitetos modernistas brasileiros. Enquanto seus colegas limitavam-se à especificação de brises e outros dispositivos convencionais, os Roberto inventavam soluções atípicas e criativas.
Desde seu primeiro projeto de importância, o edifício-sede da ABI – objeto de concurso, que lograram vencer –, a então dupla MM Roberto propunha uma solução inusitada para a época, ao apresentar um edifício 'sem janelas' visíveis, posto que ocultas por uma segunda 'pele', escamada por quebra-sóis de duralumínio – material, à época, sofisticadíssimo –, infelizmente substituídos, na construção do edifício, por placas de concreto com 80 cm de profundidade e apenas 7 cm de espessura. No prédio do IRB, outra solução inédita: painéis de fachada pré-fabricados em madeira e chapas de fibrocimento – substituindo a tradicional alvenaria de tijolos cerâmicos –, montados nos vãos definidos pelos módulos estruturais de concreto, em apenas 19 dias.
Mas foi no Edifício Marquês de Herval, na Avenida Rio Branco, que os arquitetos ousaram mais: venezianas metálicas pivotantes, fixadas em estruturas tubulares, conformando uma inusitada sobrefachada ondulante, de aparência variável, conforme a posição assumida por cada módulo de esquadria.
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Edifício Marquês de Herval.
Crédito: Zodiac (1960). |
Solução semelhante foi adotada no Edifício Seguradoras, que aqui examinamos em maior detalhe. O terreno de esquina, em ângulo agudo, com duas fachadas principais orientadas a Sudeste e Oeste-Sudoeste, representava um desafio e tanto para os projetistas. À época, o entorno do sítio era composto por construções baixas ou de média altura, o que não premiava a futura edificação com qualquer sombreamento projetado pelas edificações vizinhas, exceto nos pavimentos baixos.
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Planta de Situação do Edifício Seguradoras.
Crédito: Brasil Arquitetura Contemporânea (1953). |
Embora não tão castigadas pelo sol quanto as elevações Norte e Oeste, as orientações SE e O-SO são ingratas e muitas vezes enganadoras. Situado a 22° 54' de latitude Sul, o lote em questão tem sua face O-SO ensolarada durante todo o verão, a partir das 12:30 horas, declinando o sol no horizonte, ao entardecer, o que agrava as dificuldades de proteção térmica, sobretudo nos andares altos. Já a orientação SE apresenta o mesmo problema, porém invertido: sol pela manhã durante todo o verão, do alvorecer até quase o meio-dia, o que, em edifícios de escritórios é dramático, pois quando as pessoas chegam para trabalhar, por volta de 9 horas da manhã, o edifício já está bastante aquecido – ainda que, com o avançar das horas, se reduza o ângulo de incidência do sol nessa fachada.
Diante dessas condicionantes climáticas, optaram os irmãos Roberto por tratar as duas fachadas principais do edifício – SE e O-SO – de maneira diferenciada e com os seguintes dispositivos protetores:
Os andares baixos do embasamento do prédio, pouco ensolarados e provavelmente sombreados pelas construções vizinhas, receberam dois tratamentos diferenciados: na fachada SE, voltada para a Rua Evaristo da Veiga, uma galeria coberta, conforme estabelecido nas posturas derivadas do Plano Agache. Já na outra face – O-SO, voltada para a Rua Senador Dantas –, onde essa galeria não era prevista pelas ordenações urbanísticas, optaram os projetistas por um recuo das fachadas das lojas, mantendo-se as vitrines no alinhamento do lote, e criando-se, entre ambas, uma 'galeria interna' – hoje descaracterizada – que trazia os pedestres para 'dentro' do edifício. Complementarmente, uma grande marquise contínua e balanceada, nesta mesma fachada, protegia das intempéries o acesso principal do prédio.
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Plantas baixas do embasamento do Edifício Seguradoras: subsolo, térreo e 2º pavimento.
Crédito: Brasil Arquitetura Contemporânea (1953). |
No extremo oposto, os andares altos de coroamento do edifício – mais expostos à incidência solar –, também receberam um tratamento diferente do aplicado aos pavimentos-tipo, com brises verticais contínuos, apenas na fachada O-SO.
Já os andares-tipo do corpo intermediário do edifício (3º ao 15º pavimentos) foram objeto de decisões projetuais mais difíceis, posto que objetivou-se preservar as vistas da paisagem circundante. Nesta linha de raciocínio, os arquitetos optaram por envidraçar a fachada Sudeste, com algum prejuízo quanto ao conforto térmico, em especial no período da manhã dos meses mais quentes: dezembro, janeiro e fevereiro, quando o nascer do sol é quase frontal a essa orientação, atingindo a inclemência máxima no solstício de verão (20 a 22 de dezembro, conforme o ano). Considerando-se, que todos esses andares possuíam previsão para instalação de ar condicionado central, e que a vista dali descortinada é até hoje deslumbrante – incluindo a Cinelândia, a enseada da Glória e, ao fundo, o Pão de Açúcar –, supomos que os irmãos Roberto confrontaram-se com uma 'escolha de Sofia', optando por uma solução não de todo satisfatória em termos climáticos, mas talvez mais aprazível – e, em consequencia, comercialmente mais rentável para seus clientes-incorporadores. A real motivação para esta escolha, no entanto, permanece no terreno das suposições.
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Plantas baixas dos pavimentos intermediários (corpo do edifício):
andares-tipo e 13º pavimento do Edifício Seguradoras.
Crédito: Brasil Arquitetura Contemporânea (1953). |
É na fachada Oeste-Sudoeste, no entanto, que o gênio dos arquitetos se manifesta com vigor. Ali, a solução projetual proposta começa com o recuo das esquadrias com relação à extremidade balanceada dos pisos dos pavimentos; nessas lajes, foram abertas 'janelas horizontais', providas com venezianas fixas, que permitem a circulação vertical do ar quente enclausurado entre elas, facilitando o chamado 'efeito chaminé'; por fim, na ponta dessas mesmas lajes, foram montados painéis pivotantes sobre o eixo horizontal, vazados em ripas de madeira, estruturados com cabos de aço, e equipados com um dispositivo 'fixador de posições', de tal forma que, conforme o ângulo de incidência solar, cada quebra-sol pudesse ser ajustado nas posições 'horizontal', 'vertical' ou 'inclinada a 45°'.
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Painéis quebra-sol da fachada Oeste-Sudoeste.
Crédito: Zodiac (1960). |
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Detalhes dos dispositivos termo-protetores.
Crédito: Zodiac (1960). |
Decorridos 60 anos de sua concepção, o Edifício Seguradoras se encontra hoje bastante descaracterizado. Os dispositivos termo-protetores da fachada O-SO – hoje sombreada pelos edifícios vizinhos, de maior gabarito – foram removidos e substituídos por aparelhos de ar condicionado de janela. Constata-se, ainda, que os complexos mecanismos de comando dos painéis, se preservados, exigiriam uma manutenção rigorosa para o seu perfeito funcionamento, o que, infelizmente, não costuma ser prática corrente em nossa cultura. De tal modo que, contratempos semelhantes foram observados no Edifício Marquês de Herval, dos mesmos autores. Neste último caso, sombreada sua fachada O-SO pelo novo edifício-sede da CEF – construído nos anos 70 –, optaram igualmente os condôminos pela retirada dos quebra-sóis, descaracterizando por completo a obra, o que só nos cabe lamentar.
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FICHA TÉCNICA
EDIFÍCIO SEGURADORAS
· Cliente: Sindicato dos Seguradores do Rio de Janeiro.
· Endereço: Rua Senador Dantas 74, Centro, Rio de Janeiro-RJ, esquina com Rua Evaristo da Veiga.
· Projeto de Arquitetura: MMM Roberto (arquitetos Marcelo, Milton & Maurício Roberto), 1949; última obra de Milton Roberto, antes de falecer.
· Mosaicos da fachada e do hall dos elevadores: Paulo Werneck.
· Pavimentos: subsolo (avançando sob a galeria da Rua Evaristo da Veiga), térreo e sobreloja (recuados, com galeria de dupla altura), 2º pavimento (balanceado sobre a galeria), 3º ao 15º (pavimentos-tipo), 16º e 17º (alinhados com os tipos, mas com brises verticais nas fachadas) e 18º (cobertura recuada).
· Usos originais: lojas (subsolo, térreo, sobreloja e 2º pavimento); escritórios (3º ao 12º, e 14º ao 16º); e Clube dos Seguradores e Banqueiros (13º, 17º e 18º pavimentos).
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
I. LIVROS
• GOODWIN, Philip L. Brazil Builds: Architecture new and old: 1652-1942. New York: The Museum of Modern Art, 1943.
• MINDLIN, Henrique E. Arquitetura Moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999 [1ª edição: 1956]; pp. 236-237.
• XAVIER, Alberto; BRITTO, Alfredo & NOBRE, Ana Luiza. Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: RIOARTE, e São Paulo: Pini & Fundação Vilanova Artigas, 1991; p. 70.
• CZAJKOWSKI, Jorge (org.). Guia da Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra & PCRJ / SMU / Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro & Editora Casa da Palavra, 2000; p. 34.
II. PERIÓDICOS
• "Shops and real estate offices" in The Architectural Forum Magazine of Building, vol. 87, nº 5, nov. 1947; p. 112 [1ª versão do projeto; não executada].
• "Edifice 'Seguradoras' a Rio de Janeiro" in L'Architecture d'Aujourd'hui, nº 42-43, aout 1952; p. 39.
• "Edifício Seguradoras" in Brasil Arquitetura Contemporânea, nº 1, ago./set. 1953; pp.23-28.
• VERONESI, Giulia. "Marcelo e Mauricio Roberto: scioltezza e libertà" in Zodiac, nº 6, abr. 1960; pp. 109-117.