Publicado originalmente em Le Monde, edição de 20 de janeiro de 2010, sob o título "Grandes manœuvres pour la reconstruction d'Haïti". Disponível online em http://www.lemonde.fr/ameriques/article/2010/01/20/grandes-manoeuvres-pour-la-reconstruction-d-haiti_1294246_3222.html.
Tradução: Letícia Ligneul Cotrim
Revisão técnica: Mauro Almada
* * *
Enquanto as equipes de resgate ainda retiram os últimos sobreviventes dos escombros, e a distribuição da ajuda de emergência avança penosamente, manobras pesadas, tanto in sito quanto nos bastidores, começam a preparar a reconstrução do Haiti, devastado pelo terremoto que o atingiu em 12 de janeiro último.
 |
Palácio do Governo do Haiti, devastado pelo terremoto.
Crédito: http://www.urbanchristiannews.com. |
O desafio é imenso: o sismo destruiu metade das construções no entorno de Porto Príncipe e deixou como herança, no mínimo, um milhão de desabrigados, segundo um balanço divulgado na terça feira seguinte à catástrofe – 19 de janeiro –, pela direção da Defesa Civil haitiana. Residências, prédios públicos, estabelecimentos comerciais, enfim, um terço dos imóveis da cidade de Porto Príncipe desabou; na cidade próxima de Léogâne, a destruição foi de 90%, e em Jacmel, 60%.
 |
Ajuda brasileira presente.
Crédito: Disasters Emergency Committee in http://www.flickr.com. |
Especialistas do Habitat/ONU¹, do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento –, e do Banco Mundial desde já periciam os escombros, em missões de diagnóstico, ao custo de US$ 250.000 – cerca de €174.000. "A missão desses homens é avaliar os danos e as necessidades da população, orientar a elaboração de uma agenda voltada para a reconstrução, e definir as estratégias de financiamento", explica Sérgio Jellinek, porta-voz do Banco Mundial para os países do Caribe.
 |
Terra arrasada.
Crédito: http://jamblichus.wordpress.com. |
Mas tudo, ali, é urgente: na segunda-feira, 25 de janeiro, se reúnem em Montreal os países engajados na ajuda ao Haiti, com representantes da ONU e dos bancos de desenvolvimento, para preparar uma reunião de cúpula sobre a reconstrução, programada para dali a algumas semanas. Em 18 de janeiro, ao final de uma primeira reunião, organizada na República Dominicana, o pacote necessário de ajuda global foi estimado pelo Presidente dominicano, Leonel Fernandez, em US$ 10 bilhões, para os próximos cinco anos.
 |
Preparando a reconstrução.
Crédito: http://www.wired.com. |
"No atual estágio de análise, é muito difícil precisar os números. Talvez sejam necessários US$ 20 bilhões, e dez anos de prazo, para que Porto Príncipe volte à normalidade", estima George Deikun que coordena as intervenções do Habitat/ONU. Esta agência já lançou apelos para a captação de fundos destinados a seus programas emergenciais prioritários – a construção de abrigos e centros comunitários, utilizando-se materiais recuperados das ruínas –, orçados esses em US$ 7,6 milhões. "Existe muito pouca madeira e outros materiais disponíveis no local. E isto obrigará à importação de muita coisa, o que elevará os custos das operações. A idéia é reciclar, tanto quanto possível, os milhões de metros cúbicos de entulho disponíveis in sito", explica Monsieur Deikun.
 |
Multidões de aflitos.
Crédito: Cortesia da BBC reproduzida in http://afraraymond.wordpress.com. |
Outro problema: uma boa parte dos bairros pobres está perigosamente 'pendurada' em pirambeiras e encostas. Sendo assim, "a reconstrução vai se ressentir da falta de terrenos planos, numa cidade já superpovoada, observa Deikun. Não será possível afastar as pessoas dos centros de atividade econômica e dos recursos hídricos ainda disponíveis, embora construir nos morros eleve os custos e as necessidades de infraestrutura".
 |
Multidões de solidários.
Crédito: Daniel Barker (U.S. Navy) in http://commons.wikimedia.org. |
No entanto, todas as redes de infraestrutura urbana precisarão ser reconstruídas – ou 'inventadas', já que 78% da população sobrevive hoje com menos de US$ 2 por dia. Antes do terremoto, 70% da população urbana do Haiti vivia em favelas, segundo o Habitat/ONU; apenas 29% dos domicílios urbanos estavam conectados a uma rede de esgotos, e 21% não dispunham de água potável. "Não se reconstrói uma favela. Se a ajuda internacional nos provir os meios, nosso objetivo é sanear completamente as moradias", assegura Hossein Kalali, especialista do PNDU em reconstruções pós-catástrofes.
 |
Desabrigo imediato.
Crédito: http://www.rnw.nl. |
Antes mesmo de conhecer a extensão dessa ajuda, intensas negociações estão em curso para determinar quem deve comandar a reconstrução. Após a etapa inicial de emergência – coordenada pelas Nações Unidas –, o Banco Mundial se considera mais preparado para dirigir os futuros canteiros de obras. A instituição de Washington, que desde 2005 já investiu US$ 308 milhões no Haiti, desbloqueou mais US$ 100 milhões suplementares em regime de urgência e propôs a criação de um Fundo para a Reconstrução do Haiti.
 |
Alojamento provisório.
Crédito: UN Photo/Logan Abassi United Nations Development Programme in http://commons.wikimedia.org. |
Para Bruno Lemarquis, especialista lotado no 'birô de crises' do PNUD, "o Banco Mundial está bem equipado para assumir os projetos mais pesados e complexos, mas as Nações Unidas possuem a vantagem da flexibilidade, agilidade e maior presença no local. Logo, a melhor solução seria uma articulação – ou parceria – entre essas duas instituições".
 |
Sofrimento.
Crédito: Fred Dufour/AFP/Getty Images in http://www.infosurhoy.com. |
Oficialmente, entretanto, o único comandante a bordo seria o Governo haitiano. "Trata-se de um Estado soberano, e ninguém pode substituí-lo na definição das prioridades ou na coordenação da reconstrução", assegura Monsieur Jellinek. Nesta perspectiva, a ONU, os bancos de desenvolvimento e as ONGs não estariam no país, senão para "reforçar a capacitação": formar funcionários, arquitetos, pedreiros etc., e ajudar as comunidades a reconstruir, elas próprias, seus bairros e moradias. Ademais, participar na definição dos códigos de construção anti-sismo e dos regulamentos urbanísticos modelados para enfrentar esses e outros riscos decorrentes de fenômenos naturais: furacões, enchentes etc.. E ainda, mais que tudo, estruturar o futuro Ministério da Reconstrução.
"Considerando-se o atual estado da Administração pública, é bem possível que as agências internacionais instalem seus próprios 'serviços' no Haiti, para viabilizar a decolagem de todas essas operações", relativiza o Sr. Lemarquis. Trata-se de uma medida também considerada como um 'antídoto ou barreira [pare-feu] contra os riscos de corrupção', uma vez que uma soma de recursos jamais sonhad está sendo angariada para irrigar o país.
 |
Construção do futuro !
Crédito: http://haitirescuecenter.wordpress.com. |
*
NOTA
1. Habitat/ ONU: Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.