RECIFE E OLINDA NO OLHO DO FURACÃO DA ARQUITETURA MUNDIAL
Arquiteto (UFPB), Mestre em Engenharia Urbana (PPGEU/UFPB) e professor de Projeto e Urbanismo do Curso de Arquitetura do Centro Universitário de João Pessoa / Unipê; editor do blog www.arqpb.blogspot.com.
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Na sexta feira 5 de junho, às 22:00 h, foi encerrado o XIX Congresso Brasileiro de Arquitetos, no auditório Guararapes do Centro de Convenções de Pernambuco. No balanço geral, a Comissão Organizadora computou 3.033 inscritos; deste total, cerca de 1.800 eram mulheres, e 1.200 pernambucanos.
A presidente do IAB-PE Vitória Régia Andrade agradeceu a todos os presentes pelo sucesso do Congresso e leu a Carta do Recife, elaborada durante a 134ª reunião do COSU – Conselho Superior do IAB. Ao final do discurso, Vitória lembrou que a realização do XIX CBA ratifica a importância do Instituto de Arquitetos do Brasil, que muitas vezes desenvolve um trabalho anônimo, mas de suma importância para o desenvolvimento cultural, técnico e cientifico da profissão. Concluindo seu pronunciamento, conclamou os arquitetos a uma aproximação dos IABs e a união dos profissionais em torno da viabilização do Conselho de Arquitetura e Urbanismo.
Esses 4 dias de Congresso foram muito intensos e a programação, bastante diversificada, ofereceu uma vasta gama de opções, divididas entre vários eixos temáticos. As palestras ocorreram simultaneamente e foram bastante concorridas. O corre-corre entre os auditórios revelava a multiplicidade de interesses.
Hospedado em Boa Viagem, e tendo que enfrentar o caótico trânsito da metrópole pernambucana para me deslocar ao extremo oposto de Recife, acabei não chegando a tempo para assistir a palestra de Solano Benitez, ocorrida na quarta-feira, 2 de junho. Na saída do auditório, o arquiteto paraibano Marco Suassuna, visivelmente encantado com a palestra, declarou: "se eu for embora agora mesmo, o Congresso já valeu a pena". O arquiteto Gilberto Guedes (PB), um dos últimos palestrantes do Congresso, foi enfático ao afirmar que Solano Benitez apresentou a conferência mais rica do XIX CBA. O mesmo sentimento foi compartilhado pelo jovem arquiteto cearense Bruno Braga, vencedor do Prêmio Caixa / IAB 2008-2009, na modalidade 'Habitação Multifamiliar Sustentável em Área de Favela'. Segundo Suassuna e Guedes, o paraguaio Benitez trouxe, em sua bagagem, uma rica experiência cultural e tecnológica, extremamente criativa e adaptada à realidade latino-americana.
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Arquiteto Solano Benitez.
Crédito: Arcoweb. |
Dentro de um contexto global, formado uma sociedade fragmentada e culturalmente cada vez mais homogênea, repleta de geometrias complexas, referências tecnológicas e novos paradigmas informacionais e paramétricos, apoiados em sistemas de CAD, CAE e CAM, a obra de Benitez nos leva a refletir sobre a validade destes modelos impostos por uma sociedade de consumo que induz a standardização da arquitetura, a partir de uma ótica industrial baseada na massificação de materiais produzido por grandes conglomerados econômicos, a exemplo do concreto, do aço e do vidro.
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Casa Abu + Font; arquiteto Solano Benitez.
Crédito: Revista MDC. |
A consonância entre os discursos das principais conferências se deu por meio da reflexão filosófica sobre o modo de pensar a cidade como plataforma para o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental. Nesta ótica, a Arquitetura é uma mera coadjuvante no processo de desenvolvimento urbano.
Paulo Mendes da Rocha enfatizou a importância de superarmos as barreiras geográficas e de se explorar o potencial fluvial das cidades. Joseph Rykwert rememorou as particularidades culturais das cidades do mundo e comentou sobre os efeitos nefastos da globalização, principalmente a "pasteurização" arquitetônica.
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Arquiteto Joseph Rykwert.
Crédito: www.australiandesignreview.com. |
Bernardo Secchi compartilhou sua experiência com os estudos sobre o planejamento urbano da Grande Paris para os próximos 30 anos, exibindo uma complexo mapeamento metropolitano dissecando suas principais variáveis urbanísticas. Revelou que a equipe se envolveu num extenso trabalho de campo para coletar as percepções e necessidades de uma população multiétnica e de grande diversidade cultural.
O trabalho trouxe à tona conceitos como 'porosidade urbana', que remete à necessidade de mobilidade e acessibilidade intraurbana para promover a vitalidade e a democratização dos espaços urbanos da 'Cidade Luz'.
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Arquiteto Bernardo Secchi.
Crédito: www.cca.qc.ca/en. |
O holandês Ole Bouman pregou o adensamento das cidades, a sincronização e recombinação dos processos para criar um senso de 'comunidade'. Referindo-se à figura icônica da capa do livro do arquiteto Armando de Holanda – Roteiro para Construir no Nordeste –, assegurou que ali estava estampada a essência da Arquitetura. Um abrigo, uma sombra, um local de encontro e vivência comunitária.
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Capa de Roteiro para Construir no Nordeste.
Crédito: Internet. |
Indagando sobre o futuro, Bouman destacou a necessidade de mudança de uma 'Arquitetura passiva' para uma 'Arquitetura de ação'. "Deixemo-nos inspirar pelos problemas da cidade, ao invés de temê-los", disse o presidente do Instituto de Arquitetos da Holanda. "Onde há uma necessidade, há uma oportunidade", foi a frase que resumiu sua palestra.
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Arquiteto Ole Bouman.
Crédito: www.dutchdfa.nl. |
O chinês Yung Ho Chang iniciou sua conferência com a imagem de uma casa chinesa simples, registrada por um fotógrafo português. Lembrou sua infância num ambiente semelhante e, remetendo-se ao pátio interno da casa onde um homem alimentava um pássaro, comentou que ali era o ambiente de convivência comum e a essência da cultura arquitetônica local.
Durante toda a sua exposição, ficou clara a presença dos pátios nos seus projetos, quer fossem residenciais ou institucionais. Demonstrando bastante simplicidade e humildade, Chang fez uma bela palestra, revelando domínio do objeto, desde a pequena escala até o Desenho Urbano.
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Arquiteto Yung Ho Chang.
Crédito: spectrum.mit.edu. |
Embora o maior homenageado do congresso tenha sido Borsoi, a mensagem maior que ficou foi a de que os princípios de Armando de Holanda continuam válidos e cada vez mais presentes na prática arquitetônica contemporânea, em que pese as exigências ambientais e de conforto, mas que sempre fizeram parte da formação dos arquitetos brasileiros, especialmente os nordestinos.
Salve Luís Nunes, salve Borsoi, salve Amorim !
Salve Armando de Holanda !