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Especial

AGACHE E AS ENCHENTES CARIOCAS (I)

01/07/2010

 

O dilúvio que se abateu sobre o Rio de Janeiro na noite-madrugada de 6 para 7 de abril último, nos fez revisitar o estudo técnico desenvolvido pelo urbanista Alfred Agache, nos anos 20, para combater o problema das enchentes na cidade, àquela época, já bastante crítico.

 

Neste sentido, a Revista ViverCidades reproduz, a partir desta edição, e em 6 partes, o Capítulo II do seu famoso plano Cidade do Rio de Janeiro: extensão, remodelação, embellezamento (Paris: Foyer Brésilien, 1930), onde se pode rever seu diagnóstico e as soluções que apresenta, em parte ainda atuais !

 

Edição: Mauro Almada

Mantida a grafia original.

 

*   *   *

 

TERCEIRA PARTE / CAPITULO II

INUNDAÇÕES E ESCOAMENTO DAS AGUAS PLUVIAES

 

 

SUMMARIO: A AGUA ELEMENTO DEVASTADOR E FACTOR DE INSALUBRIDADE. A SITUAÇÃO ACTUAL. O PONTO DE VISTA SANITARIO. A DEFESA EMPREHENDIDA. A SOLUÇÃO DO PROBLEMA. MEIOS EFFICIENTES PARA ELIMINAR O MAL. OBRAS A SEREM EMPREHENDIDAS. UTILISAÇÃO DAS AGUAS DAS BACIAS DEPOIS DE PREPARADAS. CONSEQUENCIAS DA UTILISAÇÃO. ECONOMIA GERAL DO PROJECTO. ECONOMIAS REALISADAS. DURAÇÃO DAS OBRAS. ESCOAMENTO DAS AGUAS PLUVIAES. SUGGESTÕES PROPOSTAS. MEIOS DE REALISAÇÃO. SANEAMENTO DO SÓLO. FACTOS RECENTES QUE CONFIRMAM O VALOR DAS NOSSAS SUGGESTÕES.

 

 

Nas épocas das grandes precipitações pluviaes o Rio de Janeiro, devido á sua configuração topographica, está sujeito a grandes inundações. Effectivamente, o massiço montanhoso existente no próprio centro da agglomeração urbana, occasiona fortes enxurradas cujas aguas, não encontrando facil e livre escoamento, invadem as partes baixas da cidade provocando sérios prejuizos e até graves desastres.

 

A AGUA, ELEMENTO DEVASTADOR E FACTOR DA INSALUBRIDADE

 

A agua, este elemento indispensável á vida, póde tornar-se, em certas circumstancias, fonte de avarias e de males dos quaes é de grande necessidade preservar o ambiente urbano. Neste particular, a capital encontra-se em situação bastante critica. As fortes precipitações atmosphericas que se produzem annualmente durante o período estival, provocam uma elevação geral do nivel do lençol d'agua subterraneo e, ás vezes, a submersão do sólo em numerosos logares de menor altitude assim como o indica o plano annexo. As causas dessa submersão são indicadas no estudo que se segue, e os seus effeitos são ahi examinados sob o duplo ponto de vista da sua repercussão sobre o estado sanitario e sobre a vida economica da collectividade urbana.

 

A questão da inundação no Rio de Janeiro apresenta um caracter de gravidade excepcional. Ella acondiciona, não sómente todo o saneamento da cidade, como intervem na vida economica pelos embaraços que occasiona, tornando impossivel a creação de certos orgãos uteis ao seu desenvolvimento, verdadeira praga que altera este ambiente de belleza, lhe compromette a reputação e prejudica os interesses geraes.

 

Uma situação tão inquietadora para a vida presente e futura da cidade já preoccupou todos os Governos e todos os Administradores. Infelizmente, se as medidas tomadas trouxeram um certo melhoramento á situação anterior, esse melhoramento foi, porém, passageiro visto o mal continuar a dominar e o remedio ter sido pouco efficaz ou, por assim dizer, inexistente.

 

Mas então, para que um problema tão grave e de realisação tão premente não tenha sido ainda resolvido, quer isso dizer que é insolúvel ? Ou é porque leva a despesas excessivas ? – Não, – mas é provável que nenhuma das idéas emittidas ou das propostas formuladas até agora, tenham offerecido garantias sufficientes para a efficiencia dos seus resultados.

 

A questão permanece a mesma, emquanto não fôr resolvida, nenhum problema sanitario poderá ter uma solução satisfactoria, nenhuma das linhas metropolitanas subterraneas de transportes previstas no plano de remodelação poderá ser estabelecida, nem a utilisação do subsólo será praticamente possível apesar da grande vantagem que apresenta para as habitações urbanas. A sua solução é pois uma medida de extrema urgencia que impõe-se em primeiro logar na realisação do programma de urbanismo. O futuro da capital exige-o imperiosamente.

 

Todas estas considerações nos conduziram a penetrar no amago dessa grave questão e julgamos ter tido a felicidade de achar-lhe a solução completa pela applicação de meios technicos simples, cujos resultados apparecem evidentes, a priori. Solução economica que contribue para outros melhoramentos egualmente necessarios, ao mesmo tempo que contem em si os recursos precisos para cobrir a propria despesa de realisação.

 

A SITUAÇÃO ACTUAL E SUAS CAUSAS

 

O turista extrangeiro que tivesse visitado a cidade do Rio de Janeiro e se extasiado durante algum tempo deante das suas bellezas, encontrando-se ainda sob o encantamento do grandioso panorama contemplado, ficaria com toda a certeza profundamente surprehendido se se agitasse, em sua presença, o grave problema das inundações.

 

No decorrer dos encantadores passeios effectuados teria, certamente, observado certos canaes e reparado em alguns bairros mais excentricos ou em modestos ribeiros, mas em parte nenhuma teria visto cursos d'agua que lhe detessem a attenção e capazes, em apparencia, de todos os estragos mencionados em sua presença. É que a imagem da inundação apresenta-se geralmente ao espirito como inseparavel da de um grande rio ou riacho impetuoso cujo leito, ás vezes secco, porém sempre atravancado por destroços e pedregulhos e cujas ribanceiras carcomidas são sufficientes para a explicação.

 

Nada disso existe na agglomeração do Rio de Janeiro. Os canaes estão rodeados por passeios agradaveis que formam bonitas avenidas cheias de sombra e os riachos que tranquilla e profundamente correm entre beiras pouco deformadas, não apresentam nenhum dos caracteristicos da torrente. Como conceber, em taes condições, a possibilidade da submersão de determinados bairros ?

 

Examinado a configuração da cidade e prestando attenção ao imponente massiço montanhoso que a domina e ao qual se apoia, o enigma logo se esclarecerá. Effectivamente, a agglomeração se extende numa planicie baixa e estreita muito prolongada limitada, de um lado, pela bahia e o oceano, e do outro pela base do massiço do qual não conseguiu ainda alcançar as encostas demasiadamente escarpadas. Esse massiço apresenta vertentes orientadas para a cidade e de uma extensão um pouco superior a esta ultima.

 

Os rios, casalisados ou não, que servem de escoadouro ás vertentes, desaguam na bahia ou no oceano depois de ter atravessado a agglomeração. O seu regimen é muito variavel: fraco em tempo normal, torna-se muito importante durante a estação das chuvas. Os terrenos das bacias hydrographicas ficam, assim, saturadas e qualquer chuva de alguma intensidade provoca em curto espaço de tempo, um affluxo repentino consideravel no seu curso inferior, o da travessia da cidade onde a declividade é minima. Um pouco após o começo do aguaceiro, a terra arrastada pela enxurrada deposita-se nessa parte do seu curso, reduzindo-lhe a secção. Como o enorme volume liquido não póde ser contido, transborda de cada lado para as ruas confinantes, reflue á montante, enche as galerias das aguas pluviaes que desaguam no leito dos rios, espalha-se na via publica pelos boeiros e poços de visita, e invade as propriedades circumvizinhas.

 

A situação é ainda aggravada pela vizinhança dos morros, pois, as aguas que escorrem das suas encostas ou que descem das ruas muito ingrimes, arrastam uma grande quantidade de terra e detritos diversos que se depositam nas sargetas de modo a obstruir as aberturas dos rallos. Essas aguas ficam estagnadas nas partes planas em volta da base dos morros formando charcos muito insalubres.

 

Quando chuvas intensas e prolongadas coincidem com uma maré equinoxial, que vem impedir o livre curso dos rios para a bahia, reunem-se ahi as peiores condições para que a inundação attinja ao maximo. Em numerosos pontos a rêde da canalisação pluvial não funcciona mais, a calçada está submergida e, á chuva que cahe sobre a cidade, vem se juntar a invasão das aguas dos morros. Temos, então, a malfazeja inundação em toda fealdade.

 

Depois da vazante, boeiros e canalisações ficam obstruidos em numerosos pontos por montões de detritos e de terra. Outras causas vêm juntar os seus effeitos nocivos á violencia da enxurrada e participar ao desastre aggravando-o mais cada anno. Deixando de lado as causas inherentes ao sitio geographico: geologia, pluviosidades, evaporações, condensação, marés, etc. que o technico não póde dominar, são causas directas da inundação as condições aqui abaixo enumeradas:

Fig. 9. Rua do Cattete. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Fig. 9. Rua do Cattete. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30
. Paris: Foyer Brésilien, 1930.

 

1º augmento da surperficie edificada, do revestimento das calçadas, passeios, avenidas, etc. cuja impermeabilidade diminue a infiltração no sólo e augmenta a rapidez do escoamento para a rêde pluvial;

 

2º extensão cada vez mais intensa da rêde pluvial que facilita o escoamento das aguas superficiaes para os bairros novos contribuindo, assim, a elevar o volume maximo a ser evacuado;

 

3º augmento da superficie da cidade resultante dos aterros effectuados em determinadas partes da bahia, que tem por consequencia a elevação da quantidade d'agua a ser escoada reduzindo, ao mesmo tempo, o declive geral do sólo no escoamento da mesma para o mar;

 

4º insufficiencia da rêde de escoamento das aguas pluviaes e defeito das canalisações.

 

SEUS EFFEITOS

 

Esta calamidade que se renova periodicamente no decorrer do verão, traz as mais graves consequencias: desmoronamento de immoveis soterrando os habitantes, circulação interceptada, numerosos bairros situados além das partes submergidas repentinamente isolados do resto da cidade. No perímetro inundado, o accesso ás habitações torna-se muito difficil, o commercio local está interrompido, reina uma grande perturbação em toda a cidade e o prejuizo que acarreta é inestimavel.

 

Os damnos causados são consideraveis: accidentes mortaes, estragos nos immoveis, perda de material e de mercadorias, sem contar a depreciação do valor da propriedade nos bairros inundados. O concerto das vias publicas acarreta despesas consideraveis: é preciso remover o volume consideravel de terra trazida pelas aguas tanto na via publica como no leito dos canaes e dos riachos, desobstruir as galerias, reparar as obras deterioradas e as partes das calçadas abatidas, as obras provisorias de protecção, etc. E, a esses estragos directos, é preciso accrescentar os damnos indirectos difficeis de apreciar e cujo valor é certamente muito elevado.

 

O PONTO DE VISTA SANITARIO

 

A inundação traz ainda outras consequencias que por serem indirectas, e não apparentes, não deixam de apresentar aos nossos olhos uma gravidade excepcional devido a influencia inevitavel que exerce sobre o estado sanitario da agglomeração. Os detritos de todas as especies, e as dejecções organicas da superficie do sólo são diluidos pelas aguas da submersão e produzem a infecção do sólo e do lençol subterraneo.

 

Eis ahi uma das causas primordiaes da insalubridade geral que subsiste á baixa das aguas e que todos os hygienistas estão de accôrdo em reconhecer perniciosa á saúde publica devido, principalmente, ás emanações que desprendem e viciam a atmosphera das habitações. Outra consequencia, ainda mais grave, é a polluição das aguas do abastecimento.

 

Nos bairros inundados, os conductos da agua potavel e dos exgottos permanecem, frequentemente, immersos no mesmo lençol d'agua. Os terrenos do subsólo que contêm uma grande quantidade d'agua, são pouco estaveis e os conductos não encontram um apoio firme. Os mais leves movimento subterraneos são sufficientes para provocar a dislocação das juntas que accentuam ainda as trepidações resultantes da passagem dos vehiculos pesados e rapidos. Elles não são estanques.

 

As canalisações dos exgottos, que são feitas por meio de manilhas e têm forçosamente numerosas juntas, não resistem muito tempo. De facto, o seu conteúdo está em communicação constante com o lençol d'agua subterraneo. Na occasião das inundações esses conductos ficam rapidamente invadidos pelas aguas do lençol devido á pressão que as mesmas exercem. Os exgottos funccionam então em plena secção: estão em pressão; a diluição é completa: o lençol d'agua está polluido.

 

Os conductos d'agua potavel, em tubos de ferro fundido, são mais resistentes e têm menor numero de juntas. A experiencia nos tem demonstrado que até nos terrenos resistentes e apesar dos cuidados com que foi estabelecida, uma rêde d'agua potavel apresenta sempre escapamentos pelas juntas dos conductos. Está pois fóra de duvida, que em areas de aterro como as que constituem o sólo da cidade, muitas vezes saturadas e submettidas á acção de movimentos repentinos e amplos do lençol, esses conductos têm escapamentos. Póde-se admittir que a agua do lençol não penetre quando elles estão funccionando devido á pressão elevada que existe na rêde; mas, se por uma circumstancia qualquer o serviço da mesma estiver interrupto numa zona inundada e que a canalisação seja posta em descarga, a agua do lençol introduz-se inevitavelmente. Esta invasão será facilitada pela pressão do lençol e, simultaneamente, pela aspiração resultante da depressão existente no conducto no momento da sua descarga.

 

A agua do abastecimento será gravemente polluida desde que seja posta novamente a funccionar. Desta fórma a população está exposta ao perigo das doenças de origem hydrica sob fórma epidemica: febre typhoide, cholera, diarrhea, dyssenteria amiliana, etc. Num quadro schematico aqui annexo (fig. 10 e 11) concretisamos, por meio de imagens, o mechanismo da polluição que acabamos de expor.

Fig. 10. Como se opera a polluição das aguas subterraneas pelos exgottos.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Fig. 10. Como se opera a polluição das aguas subterraneas pelos exgottos.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.


Fig. 11. Como se opera a polluição da agua potavel pelas aguas subterraneas contaminadas.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Fig. 11. Como se opera a polluição da agua potavel pelas aguas subterraneas contaminadas.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.

 

É bem possível que as estatisticas sanitarias do Rio de Janeiro não tenham, até hoje, feito sobresahir nenhuma correlação entre uma recrudescencia dessas doenças e o facto da inundação ao qual poderia ser imputado. O perigo existe todavia e é permanente. Quantas grandes agglomerações, que achando-se na mesma situação foram profundamente attingidas por repentinas e violentas epidemias. Um caso recente nos fornece um exemplo bem claro:

 

No decorrer do anno de 1928, o suburbio da cidade de Lyon cujo abastecimento d'agua é abundante e de excellente qualidade (400 litros diarios para cada habitante), foi duramente attingido por uma epidemia de febre typhoide de caracter virulento, victimando mais de tres mil pessoas sobre uma população de cerca 100.000 habitantes. Ora, uma investigação revelou que um encanamento d'agua potavel tinha sido contaminado pelas aguas de um exgotto fendido situado a pouca distancia.

Fig. 12. Avenida Francisco Bicalho. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Fig. 12. Avenida Francisco Bicalho. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.

 

É bem possivel que essa situação já durasse desde algum tempo sem ter occasionado sérias pertubações no estado sanitario dos bairros abastecidos, foi precisa a reunião de diversas circumstancias para que se revelasse de um modo tão tragico.

 

Seja como fôr, as affecções francamente hydricas não são os unicos effeitos do consumo d'agua polluida. Está hoje definitivamente provado que o uso de um tal liquido influe no estado morbido e na mortalidade geral de uma cidade devido, sem duvida, a germens ainda desconhecidos. A esse proposito, citaremos aqui uma regra capital em materia de hygiene geral: O estado mórbido e a mortalidade numa cidade, mesmo afóra as doenças de origem francamente hydrica, melhoram á medida que é melhorada a qualidade da agua e augmentada a quantidade distribuida.

 

Não é demais chamar continuamente a attenção dos Poderes Publicos sobre esta importante e grave questão. Seria de bom conselho estabelecer, o mais cedo possivel, uma vigilancia toda especial da agua do abastecimento na rêde das zonas inundadas durante o periodo chuvoso prolongando-se até um mez depois, pelo menos. Essa vigilancia deve consistir em exames bacteriologicos feitos em agua tirada da rêde potavel principalmente das canalisações postas em descarga em vista de utilisação, no momento de serem novamente postas a funccionar.

 

Uma tal fiscalisação, porém, não deve ser limitada a determinados bairros e sómente no periodo pluvioso; deve extender-se a toda a agglomeração e duma maneira permanente como está estabelecido em todas as grandes cidades dotadas de um serviço de hygiene. Ora, no Rio de Janeiro, esse serviço existe e é até superiormente organisado; por isso, é-lhe facil garantir esta indispensavel vigilancia, medida essencial de prevenção, base de toda a sciencia da hygiene.

Fig. 13. Praça da Bandeira. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Fig. 13. Praça da Bandeira. Inundação em 27 de Fevereiro de 1928.

Crédito: AGACHE, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro: remodelação, extensão e embelezamento
- 1926-30. Paris: Foyer Brésilien, 1930.

 

Não é só a agua do abastecimento que constitue uma ameaça para o individuo; ella é egualmente muito nociva e perigosa para a hygiene quando estagnada no sólo, penetrando nas habitações sob fórma de vapores ou pelo resumbrar das paredes.

 

Nas partes baixas e planas da cidade, as aguas superficiaes não exgottadas pelas canalisações da redê pluvial, infiltram-se até á camada impermeavel em pequena profundidade onde permanecem por falta de escoamento. Ellas molham os alicerces e os muros das habitações e, apesar da excellencia do material, acabam por penetral-os, invadindo as adegas e porões. No Rio de Janeiro estas partes de habitação, quando existem, são improprias a qualquer uso. O rez-do-chão mesmo, está attingido por effeito da capillaridade na alvenaria sempre porosa, e os muros revelam, cedo ou tarde, os signaes apparentes das manchas de salitre e de môfo.

 

As habitações attingidas desse mal morphetico, tornam-se rapidamente fócos de infecção, propagadores de bacillos, especialmente da diphteria e da tubercolose, sem falar das outras affecções provenientes da moradia em locaes humidos: rheumatismos e doenças das vias respiratorias. Até a resistencia da construção é diminuida pela acção lenta, mas continua, da agua parada junto ás obras de embasamento que póde até comprometter ao ponto de não apresentar mais a segurança desejavel para os seus occupantes.

 

É-nos impossivel dar aqui o estudo das preocupações particulares a serem tomadas afim de preservar as novas habitações dos estragos da penetração das aguas subterraneas ou afim de reparar as construcções existentes. Antes de serem encaradas as medidas de defesa individual, deve ser emprehendida a drenagem geral do sólo da cidade realisando-a nas bases de uma concepção de conjuncto para os dois problemas: inundação e escoamento das aguas pluviaes.

 

A DEFESA EMPREHENDIDA

 

As medidas até hoje tomadas afim de remediar essa lamentavel situação, têm consistido em uma organisação puramente defensiva. Executaram-se, na agglomeração, obras importantes de canalisação, que facilitam o escoamento dos rios para o mar. A realisação desse systema de defesa é continuado cada anno, mesmo apesar dos insufficientes resultados obtidos. Poder-se-ha appreciar a importancia das obras emprhendidas pela photographia (fig. 14) que representa a canalisação do rio Trapicheiro numa das partes da cidade. Mas si a secção desta obra é grande, o seu declive é fraco e os materiaes solidos em suspensão nas aguas pluviaes nella se depositarão facilmente, de tal maneira que a sua capacidade de escoamento se tornará depressa insufficiente. Além disto, a retirada da terra depositada depois de cada enchente acarretará uma grande despesa.

 

Examinando a planta annexa póde-se observar como apesar desses melhoramentos, bairros situados a beira dos rios canalisados estão ainda sujeitos a submersões. Só esta constatação é sufficiente para fazer abandonar esse systema de defesa que occasiona gastos consideráveis sem garantir a segurança visada.

 

Varios technicos já estudaram a questão e procuraram resolver o problema apresentando differentes soluções. Não queremos discutir o valor das suggestões emittidas; nos limitaremos sómente a dizer que levam a soluções parciaes de effeito incerto e limitado. A concepção differente que mais abaixo vamos expôr apresenta, pelo contrario, garantias de efficiencia mais certa, e tem, além disso, a vantagem de ser mais economica, de realisação progressiva e trazer a solução definitiva.

 

[CONTINUA NAS 5 PRÓXIMAS EDIÇÕES]

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